Um dia comecei a sentir que tinha de me aproximar dos gatos e passar a gostar deles.
Desde criança, com simplesmente 3 anos, eu matara um gatinho recem-nascido, ao abrir as minhas mãos, para poder descer uma escada. A partir daí, sempre que via um gato, enxotava-o e chegava a persegui-lo, talvez para que, não me lembrasse a minha falha.
Mais tarde, por volta dos 8 anos, vivia a minha avó materna connosco, quando novamente fui confrontada com sentimentos menos nobres, por causa do gato que lhe pertencia. Eram ciúmes de a ver interessadíssima no gato. No entanto, em relação a mim, chamava-me nomes e maltratava como se fosse eu, o animal.
Cheguei mesmo a ter-lhe ódio de morte, por ter acesso à minha avó. Mas o que eu não percebia, é que era a doença dela que a retirava de mim.
O resto dos anos foram passados de costas voltadas para todos aqueles que miassem, ou entrelaçassem a cauda nas minhas pernas .
Perto da minha partida para a Suíça, comecei a sentir o tal apelo, que ainda hoje não sei definir.
Comecei por me cruzar com alguns gatos de cada vez que ia trabalhar. Houve um em especial, em Campo de Ourique, que me olhou do tejadilho do meu carro, como que a desafiar-me.
Tinha uma chapinha oval com o nome.
Chamava-se Romeu.
Na altura percebi, ter o gato alguma mensagem para me dizer e a partir daí resolvi estar mais próxima deles e deixar-me conquistar.
Já na Suíça a viver , fizemos algumas viagens e ao ficarmos em turismo de habitação, não havia casa nenhuma que, não tivesse dois, ou três gatos.
Vinham sempre ter comigo e alguns até queriam ficar connosco no quarto.
A pouco e pouco, fui consciencializando, que estava na hora de arranjar um.
Como não trabalhava, entendi ser uma forma de estar acompanhada.
Uns suecos nossos amigos habitavam uma moradia e partilhavam-na com 16 gatos.
Nós visitávamo-los várias vezes e eu podia observar o movimento deles e ir-me acostumando à sua presença.
O apelo foi crescendo e um dia resolvi falar com a sueca, dizendo-lhe que estava interessada numa gata amarela que por lá andava.
Era amarela às riscas, muito gordinha e fôfa. Ainda era pequena, mas não tão pequena como o outro que eu matara na infância.
A minha amiga disse-me que eles ainda mamavam e que só depois do desmame, poderia dar-ma.
Fiquei contente, porque isso ia permitir adaptar-me mais à ideia de ter essa responsabilidade. Sim, eu sentia isso como uma responsabilidade. Desta vez eu não podia deixá-lo morrer.
Passados dois meses a sueca chamou-me lá a casa e disse-me, que a gata para mim estava pronta.
Eu entrei na sala e procurei a tal gordinha e fôfa que vira das outras vezes.
É aí que fico sem fala...a minha amiga aponta para uma gata escanzelada, sem graça, que se estiraçava toda numa maple, mesmo encostada a uma outra que, me disse a sueca, ser a mãe.
Mas...balbuciei eu a medo...pensei que era outra... -" Não, a outra é um gato e tu pediste-me uma fêmea...aliás eu achei que esta, tinha mesmo a ver contigo..."
Enquanto me encaminhava para ela, eu ia dizendo a mim mesma: - Ok. Se esta foi escolhida para mim só tenho de a Amar."...e levei-a comigo, certa de que a gata seria a minha cara.
Quinze dias depois, os suecos voltaram a convidar-nos para irmos lá jantar e eu resolvi levar a Bruxa comigo, para poder conviver com a sua família.
E qual não foi o meu espanto, ao vê-la uma verdadeira menina a deambular-se por meio dos outros, como se tivesse tido uma educação esmerada. Subia e descia as escadas de forma elegantemente feminina.
Achei curioso e notório. Os outros eram bastante mais "selvagens" e sem maneiras.
Até mesmo o tal gordinho e charmoso.
Quando voltei para Portugal, trouxe-a comigo, sabendo de antemão que ela estaria a desempenhar um papel extremamente importante junto de mim.
Com ela aprendi o que era a Paciência, a Humildade, a Aceitação, o Sofrimento calado, a Subtileza, o Encanto, o Amor e principalmente o Feminino.
A Paciência com que ela aguardava que lhe desse de comer, que lhe abrisse a porta, ou lhe mudasse a areia; a Humildade com que me olhava nos olhos, sabendo que os humanos tinham mais poder do que ela; a Aceitação de ser preterida por qualquer situação que, eu considerasse mais importante do que ela; o Sofrimento calado de, ao ter dores, não se pôr em lamentos repetidos e chatos; a Subtileza com que andava por meio de tudo e todos, para que nada se molestasse à sua passagem; o Encanto que punha nas suas conquistas (e foram muitos quem ela conquistou); o Amor que punha no seu olhar, quando olhava para nós e pedia festas; e principalmente o Feminino que me mostrou assumir, sem que para isso perdesse a Dignidade e o Respeito.
A ela, Bruxa, vai esta minha homenagem, sabendo que no sítio em que estiver, vai saber que eu a Amei desde o primeiro instante em que, a considerei responsabilidade minha.
Durante a sua existência fiz tudo para que aprendesse mais um pouco sobre os humanos, de modo a poder assumir um corpo humano na próxima vida.
Durante a sua existência, fui sempre beneficiada por um amor imenso que ela sabia dar, contrariamente ao que se diz de todos os gatos.
Hoje sou uma Mulher, que perdoou ao seu Homem Interno e sei que devo isso, em grande parte a ela.
Ela foi a minha menina e a ela agradeço a sua passagem pela minha vida!
Com Amor Incondicional!
Namasté!
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